Olho pelas frestas da persiana que entreaberta transparece a luz que me fere os olhos e semicerrando-os vejo-a chegar. Estaciona o carro e avança decidida e atrasada para a porta de entrada ainda praguejando com um qualquer outro condutor: “Se não sabem conduzir não saiam de casa”, “São mais perigosos do que as próprias estradas”, etc, etc. Só ela, na sua beleza simples e porém tão acentuada não comete esses pecados; nem qualquer outro tipo de; aliás: ela, só ela, na sua beleza tão simples é simplesmente perfeita.
É tão perfeitamente bela que é incapaz de não sentir pena dos gatos que ele pontapeia, dos pássaros que cruel e sumariamente fuzila com a sua espingarda de chumbos, de todos os vermes e outros insectos rastejantes que esborracha com a sola das suas – como ela lhes chama - “botifarras”. É tão perfeitamente perfeita que até hoje nem um único peixe foi capaz de enclausurar num aquário, preferindo sempre solta-lo num riacho um ou dois dias mais tarde. É que “coitado, parecia tão triste aqui fechado...”.
É tão perfeitamente perfeita que até chega a cansar. É uma espécie de bolo que de tão doce até enjoa, um tipo de poço de virtudes isolado numa cela de assassinos frios e ferozes. É tão perfeitamente bela que ninguém acredita que não seja uma mais uma boneca “pré-configurada” de fábrica. Tem tudo de bom que se pode desejar numa outra pessoa e apenas isso nos leva a crer que é realmente falsa; inventada; não original. Porque pessoas perfeitamente belas e perfeitas não existem: escusam de me tentar enganar.
E a despropósito: será pior deixar “o bichinho ali a sofrer” ou voltar atrás para o calcar e assim “acabar com o seu sofrimento”?
Nota: Este post não é nem mais nem menos do que um devaneio; as não-personagens usadas não existem, foram criadas...
P.S. Olha... e ainda demoras muito tempo a chegar? ;)
| Name March 13, 2004 02:20 AM PST Que saudades eu tinha deste cantinho, lindo como tu, meu maninho mais novo. Voltarei em breve. Um beijo | ||
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