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   Desde esse famigerado dia no qual uma parte dele pereceu que em todos os finais de tarde serve na varanda envidraçada dois copos de vinho e um se mantém sempre intacto e imóvel, divide o jornal em duas partes e acaba sempre por esticar o braço em direcção à outra cadeira com a outra metade duplamente por ler, desde esse dia maldito que todos os amaldiçoados dias seguintes coloca os chinelos dela, de número tão pequeno, alinhados ao lado da cama de forma doentia.

   Desde o dia em que ela lhe morrera, passados já muitos séculos, que em dia algum adormeceu sem dificuldade e sempre que o consegue fazer acorda na angústia de quem inconscientemente procura a mulher a seu lado no leito pensando talvez em aconchegar-se ou algo mais, acorda na angústia de se sentir pequeno na cama enorme, sem ela.

   Desde o tal triste, chuvoso e tempestuoso dia que ele se julga sobrevivente único de um mundo morto, talvez não repare na quantidade de mulheres que não tão assim secretamente o admiram e desejam mesmo que ele as olhe como se fossem transparentes ou pior, nem sequer as olhe, talvez não se aperceba que tem, por exemplo, um nível de vida que lhe permite viver senão nesta loucura, nesta espécie de alheamento, apatia ou autismo. Desde o dia em que ela lhe morrera.

                                                                             (Fim do 2º Acto)

   1 comments

Paula da Travessa
March 16, 2004   10:55 AM PST
 
Este o tipo de amor que egoisticamente desejamos que sintam por nós...não é?

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