Wednesday, February 25, 2004
"Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!"
José Carlos Ary dos Santos
(As Portas Que Abril Abriu)
Posted at Wednesday, February 25, 2004 by GreenShadow
Wednesday, February 18, 2004
Tenho parecido um bocado parado, não? Houve quem tivesse espalhado o boato de que eu teria sido mais uma vítima do tráfico de orgãos. Na verdade, bem que precisava de outro pulmãozito e não de um a menos mas o boato é apenas isso mesmo.
Ó infortúnio!...
Posted at Wednesday, February 18, 2004 by GreenShadow
Friday, February 06, 2004
Desde O Dia Em Que Ela Lhe Morrera
Desde o dia em que ela lhe morrera -e esta atribuição de uma certa posse não é feita por mim- que ele diária e religiosamente lhe dedica cerca de quatro a doze horas para lhe falar e contar o quão aborrecido ficou com uma qualquer situação no escritório, para descrever as situações ou pormenores que o fizeram além do costumeiro pensar nela, lembrar-se dela, para dizer que o vestido verde sempre lhe ficou muito bem e que por isso ele o observa depois de o pousar esticado no sofá.
Desde o dia em que ela lhe morrera- e este "lhe" era ele que o usava mas noutra pessoa e portanto obviamente, dizia "me"- que ele nunca abandonou o negro. Usava sempre um fato preto e uma gravata de igual cor, carregando ainda mais no luto com uma tira negra no braço que há muito não se usava. Mas este sim era um homem intemporal, não pelo génio ou obra deixada à humanidade mas porque não vivia o tempo, não o contava, para ele isso nem contava. Haviam-se passados séculos desde que ela lhe morrera e ainda hoje ele espera que a qualquer momento ela chegue ou "talvez amanhã" quando ele chegar a casa vindo estafado do escritório engravatado e pardacento ela esteja a preparar como era seu timbre, um dos seus cozinhados maravilhosos.
Desde o dia em que ela lhe morrera que passa tempos infinitos revirando e alinhando lhe os vestidos, escolhendo invariavelmente o verde e esticando-o de seguida no sofá, desde esse dia em que ele mesmo a viu descer à terra para com a terra se fundir, desde esse dia perdido algures nos últimos séculos passados que ele não esqueceu mas também não recorda pois não aguentou nunca aquela casa sem ela, desde então que todos os dias pede ao seu Deus ou tenta pactuar com o seu Diabo para que a tragam de volta e chega até a tentar juntar os dois num favor divino-pecaminoso.
Desde esse dia, o dia em que ela lhe morrera e ele mesmo atirou terra com suas próprias mãos para a sua cova de tamanho de meio homem enquanto por coincidência ou não um vendaval se levantou e urrou e as nuvens despejaram suas lágrimas durante um dia inteiro, desde esse dia que ele dizia que ele próprio tinha morrido. Desde o dia em que ela lhe morrera.
(Fim do Primeiro Acto)
Posted at Friday, February 06, 2004 by GreenShadow
Tuesday, February 03, 2004
Manifesto de um puto designado de reaccionário
Posso ter tido, até à data, uma vida curta ou mesmo ínfima. No entanto, se houve algo que ela nunca foi, foi vazia; desprovida de pensamento; acima de tudo, submissa.
Confesso ter tido sempre uma verticalidade quase inquebrável o que, para os mais incautos, não significa orgulho. Na verdade, nos alicerces desta mesma verticalidade estão várias virtudes e quem sabe,ainda mais “defeitos de feitio”, mas um deles não é, de facto, o orgulho. Aliás, entre muitas coisas que me dão os mais variados prazeres, uma delas é não ser orgulhoso e aceitar que possam alterar a minha opinião. Isto, claro está –ou deveria estar pois no nosso país, o vulgar cidadão não tem por hábito pensar- se me apresentarem argumentos capazes de o conseguir: argumentos válidos, estruturados e pensados.
E de facto, porque já vai algo longa a introdução e não era isso o pretendido, se houve questões que nunca, em tempo algum, alguém me convenceu do contrário, foram: “Devo reivindicar o que considero serem os meus direitos?”; “Devo recusar sentir-me calcado pelo meu semelhante?”; “Devo, para bem da minha consciência dizer o que penso?”.
SIM! E até hoje nunca me convenceram do contrário. E o argumento assaz costumeiro de que “nós somos peixe pequeno e eles tubarões” não é um argumento pensado, é sentido: é medo; é uma pequenez tão medíocre quanto inqualificável. Na verdade, posso e devo admitir -antes que perguntem- que algumas vezes me dei mal; que já bati com a cabeça na parede e sofri várias vicissitudes; mas sempre preferi ser preso por ter cão do que por não ter. E quer isto dizer o quê? Muito. Quer dizer que jamais permitirei que o meu semelhante, especialmente por ser eu o primeiro a respeitá-lo, tente calcar-me ou desrespeitar-me simplesmente por se sentir superior na ignorância de quem menospreza um adversário. Porque se me sussurrarem, a medo, que posso acabar por ser prejudicado, a esses respondo que também o seria se me deixasse calcar.
Uma das grandes vantagens de Portugal já não ser o quintal de um qualquer fascista é o facto de poder expressar a minha opinião. E expressar é isto mesmo: manifestar sentimentos, impressões, por palavras ou gestos. E à falta de arte para pintar um quadro, escrevo e falo. E quem o não faz, quem tem medo até de pensar, esses ratos e parasitas que vivem uma liberdade à custa de outros tudo o que conseguem é, por arrasto, serem livres para falar mas ninguém os ouvir e os pontos mais altos das suas vidas dão-se enquanto calados, os calcam e chafurdam na lama da submissão ao rebanho.
E se algum dia eu mesmo tiver de ser assim, que os elementos naturais me permitam morrer antes que chegue esse tempo ou então como uma árvore: de pé.
Porque até hoje nunca me convenceram do contrário, sinto “orgulho do bom” na minha verticalidade pois é ela que me deixa dormir à noite de consciência tranquila. Poderão dizer o mesmo? De certeza? Assim espero...
Posted at Tuesday, February 03, 2004 by GreenShadow
Sunday, February 01, 2004
Eu sei que um dia nos vamos encontrar pois não poderemos andar uma vinda inteira perdidos e enquanto isso não acontece, gasto a tinta de canetas escrevendo-te, criando-te minha na realidade da nossa suposta existência. É por isso é que te procuro atentamente nos recantos mais obscuros do olhar, reparo em pormenores insignificantes de tanto ansiar ver e não raras as vezes fico com a sensação de que nos cruzámos e não soubemos, que talvez não tenha reparado no teu brilho nem tu escutado o meu silêncio. Mas eu sei, eu sei que um dia nos encontraremos e por isso olho pela janela vezes sem conta, irás aparecer e dirás ?Desce? e eu ?Sobe? e ficaremos na dúvida esboçando um sorriso imbecilmente feliz e assustado. Mas enquanto isso não acontece acumulo grãos de poeira cósmica recheados com as minhas criações. E um dia, nesse dia, mostrar-te-ei a minha colecção de ti, todos os rascunhos que fiz até que finalmente te escrevesse ou criasse. Um dia a música será outra ou o gira-discos simplesmente avançará o risco e não martelarei sempre as mesmas teclas de um piano já rouco. Mas eu sei, eu sei que num dia nada normal como o de amanhã - ou depois- não mais calcaremos terrenos antípodas...
Posted at Sunday, February 01, 2004 by GreenShadow
Friday, January 30, 2004
Aproximam-se Grandes Mudanças...
... Não sei se boas ou más, pequenas ou grandes; são mudanças; alterações como todas as outras...
Liberdade
"Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca... "
Fernando Pessoa
Posted at Friday, January 30, 2004 by GreenShadow
Tuesday, January 27, 2004
A chuva escorre pela tarde que semanalmente - e rotineiramente - quebra a rotina instituída. À chuva passeio feito doido feliz na ignorância da demência, passeio envolto na névoa de mais um cigarro, passo firme e decidido, não acelerado, não arrastado, firme e decidido sem destino intermédio ou final, passo boémio, melancólico mas firme e decidido, passo a passo, passo de olhar fixo no firmamento encoberto.
Não sinto nem frio nem nada, a roupa molhada, não sinto os pés que dão os passos, a face salgada, o fraquejar a breves espaços. Não sinto.
Firme e decidido no passo, não sei por onde passo de olhar fixo no espaço... E com a névoa de mais um cigarro, deixo rasto e apago rastro como se varresse para o lado avesso de um tapete que suporta os passos.
E à chuva, enfim, com as Nocturnas músicas de Chopin a ecoarem uma vez mais na mente, olhar fixo no horizonte escondido, repousando na ausência da sinarquia, passo a passo reparo que o mar grita como se o tivessem deixado em carne viva, enfurecido, raiva cega rebeldemente incontrolável, tão contrário ao que sinto, compreendo-o e fundimo-nos num abraço dos seus salpicos.
Firme e decidido, o passo, abraço a chuva na tarde libertadora e passo, a passo, por locais que não decoro nem sequer reparo, com o olhar fixo num ponto algures no espaço.
Posted at Tuesday, January 27, 2004 by GreenShadow
Friday, January 23, 2004
Por mim passaria horas em silêncio lendo a íris dos teus olhos como quem vive uma aventura de um livro e em silêncio anotaria tudo o que te quisesse ler, no silêncio saborearia e absorveria cada letra da tua alma. No fundo faria o que sempre faço, render-me-ia à evidência da sabedoria do entre-as-capas e aprenderia e perceberia assuntos sem fim.
Ou então passava horas a ouvir-te como na longínqua altura em que treinava sonatinas ao piano para que melhor as pudesse sentir, talvez aprendesse umas piadas que te fizessem sorrir e esculpisse a réplica do teu sorriso no branco do mármore.
Por minha vontade beijaria pela primeira vez os teus lábios como se já fosse a última e arrancaria do teu peito o último suspiro sorumbático, talvez te falasse ao ouvido, pleno de suaviloquência ou te abraçasse num infinito entrelaçar de corpos.
Na realidade, faria e seria exactamente o mesmo, seria este parasita da tua alma alimentado através de ti, virar-se-ia o feitiço contra o mago e só iria existir no interior do teu ser...
Posted at Friday, January 23, 2004 by GreenShadow
Thursday, January 22, 2004
... do post de dia 20 de Janeiro desta menina linda, a Paula-Batata...
E seguimos passo a passo, de dor em dor, como se nada mais importasse além desta espécie de exorcismo. E exorcizamos dores ou fantasmas dando lugar aos de reserva e criamos, destruímos, perseguimos e inventamos uns antes dos outros, como se tivessem vivido toda a sua existência espectral dentro de nós.
Mas lá vamos devagarinho, como bons portugueses, quase em bicos de pés, procurando do outro lado da cascata a dor final, a mais dilacerante, a dor de origem quase profética de quem espera que o alinhamento dos astros destrua ou suplante o fantasma anterior.
E assim, de dor em dor, passo a passo, sofrendo como quem vive, sobrevivemos na procura do sofrimento que combata o sofrimento, espécie estranha de vírus que é a origem da doença e do próprio tratamento.
O problema, digo eu, é o facto de com o passar e ficar das dores, irmos perdendo a capacidade de encaixe e de procura, de força e de vontade. No fundo, somos nós mesmos a acabar suplantados, transbordados pela dor, visivelmente mais velhos, gastos e usados, decididamente mais frios e calejados. E por vezes decididos a não mais as sentir…
Posted at Thursday, January 22, 2004 by GreenShadow
Wednesday, January 21, 2004
Estou aqui a falar com o senhor das vertigens e não é que o tipo disse que gostou do meu último texto (o Verdade Pura)? Pois é, dizem as más línguas que ele não anda bem, que se tem esquecido de tomar os comprimidos; aqui está a prova.
Um grande abraço pá! E ler o teu blog não é, de todo, uma perda de tempo!
*Green abandona a sala deixando atrás de si um breve rio de baba*
Posted at Wednesday, January 21, 2004 by GreenShadow
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Erros gramaticais (tantos!), textos, críticas, insultos e mais, muito mais... Não te acanhes!...
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Sim, sou um caso perdido ao ponto de querer receber notificações de actualizações?...
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